2009
11.18

O fundador dos Staaplaat Soundsystem Geert-Jan Hobjin, designer gráfico, curador e músico experimental iniciou este projecto em conjunto com Carsten Stabenow, fundador do festival da arte digital alemão Garage e tem organizado e agido como curador para vários festivais inseridos nas temáticas comuns ao UM.

Dentro das tendências correntes de adoração da ultimas tecnologias inseridas na media art, os Staaplaat Soundsystem representam uma lufada de ar fresco, relembrando-nos da tradição e das antigas máquinas barulhentas, desde carrinhos de brincar, bicicletas etc,. Estes artistas “tresloucados” operam nas entrelinhas onde a arte e o mundo real se encontram. As instalações que apresentaram foram concebidas com meios “low tech”, uma filosofia simples que se apropria do espaço e transmite uma sensação interacção com os meios convidando o próprio espectador  a participar no processo. As suas obras são brilhantes na sua simplicidade e o efeito de desmitificação tecnológica com que são concebidas é contagiante. A sua performance e as conversas foram as que mais polémica geraram entre todas as apresentadas. Tivemos a oportunidade de falar posteriormente sobre o projecto assim como as técnicas de som utilizadas, repercussão em zonas públicas onde são feitas habitualmente as intervenções e a forma como o próprio espaço interage com o som assim como as suas anteriores experiências se relacionam com as presentes.

No decorrer do Festival UM decorreu uma exposição na qual constaram as seguintes peças:

Trigger Happy – André Gonçalves, PT
Artificial Smile – Andreas Schmelas & Stefan Stubbe (DE)
Singing Bridges – Jodi Rose, AU/DE
The Great Game – John Klima, US/PT
Extracts of Local Distance – Torsten Posselt, Benjamin Maus, Frederic Gmeiner, DE
Entropy – Terike Haapoja, FI
Monitor Photography – Sandra Dick and Lukas Hartmann, DE
Image Fulgurator – Julius Von Bismarck, DE
Time Machine – CADA/CITI, PT

Experimental Intermedia” subjugado ao tema de “Landscape” foi sobretudo a linha orientadora deste Festival, grande parte das obras apresentadas incluem uma componente de feedback, trabalham o espaço, o som e o factor humano sendo que existe quase sempre uma via de interacção que a obra comanda sobre o público. Procurou-se sobretudo oferecer uma exibição relacional da componente sociológica com a construção dos espaços e das interacções que ocorrem em consequência das intervenções apresentadas. Os conflitos presentes no programa do Festival, a experimentação de práticas e metodologias nem sempre congruentes, proporcionaram um espaço de expressão no qual foi possível encontrar a forma de “use our illusions” que surge em consequência da nossa interacção e condicionamento, de como mediamos o nosso mundo, o nosso ambiente, a nossa sociedade enquanto indivíduos. No espaço da exposição foram executadas duas performances, Yokomono pelos Staalplaat Soundsystem e uma mostra de música electrónica criada a partir de instrumentos experimentais por Rafael Toral.

Ambas as performances ofereceram uma visão sobre a música electrónica experimental e comtemporânea de encontro e fusão, de resultados ordenados de um caos premeditado. Pela sua natureza enquanto performance e pelo suporte que ambas utilizam as duas experiências são únicas nas suas repetições e o modo como o som produzido é influenciado de forma sequencial por todos os objectos presentes através de interferências ou modularidade criadas pelo próprio espaço ou em Yokomono pelos próprios instrumentos uns sobre os outros confere uma organicidade estimulante à música criada e que ultimamente se reflecte sobre o utilizador/público na forma como sons previamente indesejados (interferências) são agora não só apetecíveis como os seus elementos exclusivos e de que forma é possível transpor essa experiência para os “espaços” reais, onde a cidade produz uma harmonia semelhante interpretada agora sobre uma nova perspectiva. Ainda de forma singular as experiências por Rafael Toral provocam para além da relação que se desenvolve direccionada do centro para fora todo o processo de construção e exploração que se cria com objectos que para além do que produzem, do seu propósito, são em si peças fundamentais de relações existentes nas próprias peças e incorporam outras influências:

Evelina Domnitch e Dmitry Gelfand são dois artistas que trabalham em conjunto há mais de uma década, fazendo experiências através da abordagem simultânea de vários sentidos – ou seja da transmediality. Utilizam fisica, química e arte digital na concretização dos seus trabalhos, mantendo também uma componente isotérica filosófica. Esta mistura de perspectivas é possível devido ao background multidisciplinar de ambos – Evelina tem formação em psicologia e arte digital, conhecimentos em física e química e mantem-se constantemente informada sobre as inovações tecnológicas. Dmitry tirou o curso de realizador.
Estas experiências e instalações nascem da crise em que a ciência se encontra, causada pela dificuldade em se fazer entender e limitação na sua capacidade de comunicar: a resposta está em criar uma nova linguagem e esse é o principal objectico de Domnitch e Gelfand.
Não só as ideias e projectos partilhados por ambos, como também pelo investimento cuidadoso numa linguagem visual futurista/circense, fizeram desta apresentação uma performance única e coesa. A ligação com o conceito Landscape do Festival UM foi abordado como sendo um espaço mental ao qual chamaram Brainscape. Este é o espaço ao qual dão mais relevância e que exploram através das experiências artísticas apresentadas.

” Acreditamos que as duas únicas profissões existentes no futuro serão a arte e a ciência: todas as restantes profissões serão desempenhadas por robots.” Evelina Domnitch

Sonolevitation

Terike Haapoja

“This is what I think with. These are the tools. This is what my body resonates with, these are the words that not only represent the outside reality but also create me as who I am. My thinking is rooted in the landscape; I am a location.”

Através desta citação de Terike Haapoja apercebemo-nos do envolvimento extremo da artista com a ecologia: o seu posicionamento e criações revelam um olhar responsável sobre um todo apresentado como indissociável: a natureza/universo e ela própria/humanidade. O objectivo das suas intalações não é só um exercício de consciencialização ecológica, mas pretende ir mais além: é criado um ambiente experimental onde o receptor se identifica e interage com uma natureza personificada e audível, conseguindo assim colocá-lo em pé de igual com a instalação e fazê-lo reflectir sobre a verdadeira importância do Homem relativamente aos restantes elementos naturais, como se pode ver em alguns trabalhos apresentados, como Inhale-exhale instalação que ligou ao mote “Lanscape“, onde um caixão de terra respira ou em Dialogue, onde as árvores interagem com os visitantes.

1-th-inhale-exhale-front

terike-haapoja-dialogue1

Outra faceta igualmente importante do Festival é a grande afluência dos artistas representados no mesmo quer nas conversas, workshops e sobretudo na própria exposição onde uma maior intimidade com as obras pôde ser desta forma procurada. Um dos temas que se propiciou durante este contacto foi de encontro sobretudo à aceitação e legitimidade que a exploração dos novos media como meio de acção social, de formação de espaços e da interacção com os mesmos enfrenta. É difícil condicionar, classificar de forma assertiva, o papel que estas obras desempenham e de forma mais relevante os seus autores. Foi possível reconhecer por parte dos intervenientes que não desenvolvem de forma exclusiva projectos nesta área e que permanece uma dificuldade em ver reconhecida a importância dos seus trabalhos como componentes essências na construção da sociedade e ou na modelação das nossas relações, um reconhecimento que pode ser absolutamente essencial para que, de forma decisiva, existam processos culturais e científicos progressivos. É na sequência da forma como tomamos consciência dos cruzamentos que as experiências intermédias propiciam, com outras disciplinas que aprendemos, a retirar um valor real destas intervenções que festivais como o UM promovem.

Dimitar NikolovMarta JardimPedro Carvalho

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